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Lá em casa eu regulo muito as coisas que as crianças comem.

Salgadinho? Nem pensar, não tem.

Refrigerante tem, mas não pode durante a semana. O Gui não gosta, graças!

Bolacha recheada e bolinho? Só um pouquinho, depois da fruta.

Considerando esse contexto, estava conversando com ele outro dia:

- Ai, filho, você está tão magrinho! Eu queria que você engordasse um pouquinho, comesse mais.

- Mãe, sabe o que é? Você só dá fruta e verdura pra gente.  Essas coisas não têm nada, só têm vitamina. Vitamina não engorda.  Você deveria deixar eu comer bolacha, bolinho, tomar sorvete na hora que eu quisesse.  Aí sim eu ia engordar…

Acho que ele tem mais futuro como Advogado do que como Nutricionista. :)

Mas não é!

Depois de esperar muito tempo e de pedir caridosamente um milhão de vezes que o Gui arrumasse a cama dele para que eu pudesse apagar a luz para eles dormirem, decretei:

- Agora você vai apagar a luz! – e saí do quarto.

Enquanto estava andando pelo corredor, ouvi o menino reclamando muito. Resolvi parar para ouvir.  Não sei bem o que ele estava falando, mas terminou assim:

- Parece que eu tenho que fazer tudo sozinho nessa casa!

Ao me ver na outra ponta do corredor ouvindo toda aquela ladainha, ele se justificou:

- Eu disse “parece”!

:)

Então tá!

Estava no quarto e ouvi o menino gritar com a irmã:

- Isa, não acaba isso aí mais não?

A irmã, que estava no banheiro com a porta fechada, ignorou solenemente o menino.  Ele insistiu:

- Isa, é número1, 2 ou 3?

“Três? O que será número três?” – pensei.  Não me contive:

- Filho, o que é número 3?

- Vômito! – respondeu num piscar de olhos.  :)

Você já Chorou Hoje?

Eu já, mas de felicidade!  Lindo texto do Elcio:

“Quando recebi a notícia do meu câncer pensei duas coisas de imediato, a primeira foi: “ainda bem que é comigo e não com as crianças ou a Erika” e, a segunda, “se eu faltar para a minha família, o que será deles?”

Imaginava que eu, sendo o pai, teria a obrigação de suportar as grandes desventuras da vida, poupando-os das decepções e sofrimentos. Deveria estar com eles sempre que necessário por longos anos, sem saber ao certo até quando…

Hoje, após o tratamento, continuo achando melhor ter sido comigo que com eles, mas entendo que uma doença dessa não é uma loteria que sorteia uns e exclui outros. Ela é um presente da vida, como um livro que não gostamos da capa e que precisamos ler até o final, seja ele qual for. Acontece que este livro nos dá uma nova visão das coisas, uma nova perspectiva de mundo.

Logo no primeiro capítulo desta “leitura obrigatória” aprendi que não conseguiria poupar ninguém dos seus próprios sofrimentos e angústias, pois cada um tem o seu caminho, sua jornada, suas leituras e aprendizados.

Jamais terei como garantir que aqueles que amo não irão sofrer ou passar por privações. Não posso garantir que eles não ficarão doentes e que eu vou ficar aqui eternamente, não estou no controle dessas coisas.

Aprendi de forma indelével, no fundo da minha alma, que o único legado que posso deixar é o meu amor por cada um deles. Com o meu amor eles poderão contar em todos os momentos bons ou ruins, esteja eu ao lado deles ou não. Com a certeza deste amor eles poderão ter forças para crescer, trabalhar, superar, vencer e principalmente amar ainda mais.

Amo vocês!”

Acabou!

Nos últimos meses, nós enfrentamos uma das piores coisas que uma família pode enfrentar na escala de coisas ruins da vida: o Elcio descobriu um câncer já em um estágio de metástase. O câncer não apenas acomete um individuo, ela adoece a família toda.

O nosso núcleo familiar mais próximo sofreu um baque direto, que atingiu também nossos familiares distantes e amigos. Alguns planos foram cancelados; sonhos, adiados; preocupações, que a gente deixa sempre embaixo do tapete, afloraram. A gente se dá conta de que não é nada e percebe que a gente não é dono da nossa vida, dos nossos planos e nem mesmo da gente, com bem dizia a sábia Mamãe Clory. Pensar assim dá um medinho, né? Mas também nos coloca cara a cara com a idéia de que não apenas somos. Nós estamos. Tudo é transitório: os prazeres, as dores, as alegrias e pesares. Essa idéia de que nada é definitivo pode, algumas vezes, dar-nos esperança e desejo de sermos sempre melhores. Com esse pensamento é que a gente consegue tirar o melhor de cada experiência.

Eu criei uma imagem de que o câncer poderia ser como um rastelo de areia: ele serve para separar tudo o que nos prejudica, faz mal e atrasa daquilo que queremos manter porque nos é benéfico. O Elcio em um momento percebeu a doença como um respiro, um tempo para avaliar tudo e ver que rumo seguir. Se a gente parar bem para pensar, as duas idéias são complemetares.

Poder avaliar, separar, limpar e decidir qual caminho seguir é uma benção.

Poder perceber que a gente tem amigos que nos ajudam nas questões práticas, que rezam por nós, que se preocupam é uma benção.

Poder sentir que o amor que nos une em família é verdadeiro, sincero, forte e capaz de resistir a qualquer prova que a vida mandar é uma benção.

Se essas bençãos chegaram até nós através de uma doença, que seja. Garanto que a lição foi aprendida e que elas não serão desperdiçadas.

Câncer é uma doença que incomoda, desconforta, traz medo. Quando a gente fala de uma pessoa jovem como o Elcio, os sentimentos vem ainda mais fortes. Aos amigos que venceram o desconforto, o medo de falar, a insegurança de como reagir e nos deram apoio e nos ajudaram sempre, nosso mais sincero agradecimento!

Obrigada a nossa família querida que nos ofereceu ajuda, dinheiro, tempo, disponibilidade, conselhos e que nos deu a única coisa que estávamos realmente precisando: amor!

Meu amor, que bom que você está bem! Não imagino minha vida sem você nem um minuto! Quanta coisa a gente já viveu, não? Que compromisso forte e bonito assumimos juntos. Nossos filhotes precisam de você sempre do lado deles como você é: brincalhão, amoroso, bringuento, cheio de manias… Como bem disse a Isabella hoje mesmo, eu adoro ver você sorrindo! Te amo demais!

Nos Olhos de Quem Vê

Você esta na maior bad trip na frente do espelho.  Manja aquela fase em que o seu cérebro entra na vibe eu-estou-obesa-e-não-tenho-nada-que-fique-bom-em-mim?  Sua filha entra no quarto. Paradinha na sua frente, exatamente entre você e o espelho, ela te olha nos olhos e diz:

- Mãe, quando eu crescer, quero ser igual a você.

- Como, filha?

- Assim, usar salto, maquiagem, ter uma casa legal, com família, um trabalho num lugar legal…

- Deus te ouça, filha!

Nessas horas nem da pra reclamar mais de nada, né

9 anos!

Nós fizemos uma oficina de cupcake para comemorar o aniversário da Isa e eu posso dizer que o tema foi bem condizente com a aniversariante.

Se existe um adjetivo que qualifique bem a Isabella, esse adjetivo é “doce”.  Ela é uma menina doce na concepção mais ampla da palavra, fala baixinho, preocupa-se se estão todos bem e detesta ferir o sentimentos de qualquer pessoa. Nos últimos meses ela tem se tornado mestre em entender o sentimento daqueles que a rodeiam, especialmente a nossa família mais próxima.  Ela olha pra mim e saca como eu estou me sentindo. Isso é lindo de ver e dá um orgulho danado, mas é perigoso também. Nem sempre uma criança deve entender como a gente está se sentindo.

Mas, fazer o que, ela já nasceu precoce e madura e está numa caminhada veloz para se tornar uma pessoa cada vez mais especial. Em um episódio muito triste e recente na nossa família, ela perdeu a bisavó dela, vozinha do Elcio; mas, mesmo estando triste, a maior preocupação dela era com a avó dela e com o pai.  Quando o Elcio chegou ao velório, ela deu a mão pra ele, abraçou o pai e falou: “Pai, tudo bem se você quiser chorar um pouquinho…” Ela é esse tipo de gente: o tipo que é capaz de dar apoio mesmo sofrendo.

Filha, agora que você é leitora do blog, a mamãe quer te dizer uma coisa: há poucos dias, eu fiquei muito brava com você.   Eu tinha razão de ficar brava, mas eu não podia ter feito o que eu fiz. Você sabe do que eu estou falando.  Eu tive uma reação desproporcional ao seu erro e o seu pai ficou muito bravo comigo. Eu fiquei brava comigo.  Você, do alto dos seus 8 aninhos, ficou do meu lado e me deu a mãozinha quando percebeu que eu estava triste. Eu já te pedi desculpas pessoalmente, mas eu quero que você leia as minhas desculpas aqui no blog.  Você é uma menina linda, especial, evoluída e que vai ser muito feliz.  Se por um acaso, em algum dia, você não estiver feliz, eu quero ter a mesma sensibilidade que você e poder te dar a mão sempre que for necessário.

Eu te amo demais e o seu pai e seu irmão amam ainda mais do que eu.

Tenho orgulho de ser sua mãe!

Bomba Natureba

Gui e pai jogando Xbox. O papai esta tentando matar alguma coisa num jogo de guerra. O menino desesperado sugere:
- Joga uma granola nele, pai! :)

A Isa vinha questionando muito sobre a existência (ou não) do Papai Noel.  Já tinha dito que algumas amigas não acreditavam, já tinha inventado de pedir coisas impossíveis (como um Ipad) e por fim tinha anunciado que não ia deixar que nós lêssemos a cartinha pro Papai Noel que o presente tinha que ser surpresa para mim e para o Elcio.  Conversamos sobre o assunto e ficamos meio que num impasse: o Elcio queria contar e a verdade e eu ainda não estava muito certa sobre isso.  Ouvimos algumas opiniões e nós aproveitamos uma dessas pressionadas dela para contar que Papai Noel é o espírito de Natal, é o sentimento de amor que existe em cada um de nós.  A princípio ela demonstrou choque.  Perguntou sobre a fada do dente e o coelhinho da páscoa.  Ouviu tudo tentando segurar as lágrimas, mas no final desabafou:

- Acho que eu não recebi isso bem… – e correu pra abraçar o Elcio chorando muito.

Eu fiquei tão nervosa que tive um acesso de riso. :(  Expliquei que estava rindo porque estava nervosa porque no fundo, no fundo a gente não esperava essa reação dela.

- Filha, a gente achou que você já sabia porque você questionava tanto…

- Mas eu não queria saber a verdade!

:(

O Elcio disse que não se arrependeu, mas eu fiquei bem arrependida.   Acho que eu também não estava preparada para esse passo. Crescer é difícil, mas ver crescer também não é fácil não.

 

Formatura Guilherme

Na semana passada, tivemos a formatura do Gui. Além da cerimonia de colação de grau, eles fizeram uma apresentação de uma peça do Oswaldo Montenegro.  Por coincidência, ele apresentou a mesma música que a Isa há alguns anos na formatura dela e foi justamente o vídeo dessa apresentação que eu escolhi para ilustrar o post.  A música é linda e o vídeo ilustra muito bem algumas das características mais marcantes do Gui.

Guigo, ficamos todos muito orgulhosos de você.  Mamãe, papai, Isa, tia Cybelle e os vovôs Eleutério e Elcio babamos demais!  Você é um líder e dá muito orgulho vê-lo coordenando os amigos, indicando onde eles devem ir e o que devem fazer.  Você adora dar ordens e parece que faz isso bem porque as crianças ao seu redor geralmente acatam com facilidade as coordenadas que você dá.  Esse é um dom que você tem naturalmente.  Além disso, você é focado, concentrado e adora fazer tudo do jeito mais certinho possível.  Dá pra ver que você se esforça para fazer o movimento do ponteiro do melhor jeito, fica paradinho na hora que é pra ficar, segue direitinho a música.  Criatividade também não te falta.  Como você mesmo disse, foi sua a ideia de mandar um beijinho para as bailarinas e isso também mostra uma das características que eu mais gosto: você é extremamente carinhoso.  Essa qualidade é uma das mais importantes no ser humano, filho: o carinho com o próximo e consigo mesmo.  Desejo que  você, ao longo da sua linda vida, possa desenvolver todas as suas características boas. Desejo, acima de tudo, que você seja sempre capaz de aprender com os seus erros porque essa é a maior prova da capacidade humana.  Amamos muito você!

“o tic tac do meu sonho
tá que nem pode saber
do que te queria e ponho
onde possa parecer
que o relógio tão tristonho
adivinha sem querer
não há nada mais risonho
do que o tempo a correr”

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