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35 Anos!

Eu cresci numa família Católica e fui apresentada ao Espiritismo pelo Elcio.  Hoje sinto que sou religiosa. Ponto.  Todas as religiões tem aspectos que fazem mais ou menos sentido para mim.

Ao Espiritismo coube a função de me apresentar o conceito de vidas passadas, de relações previamente existentes, mais fortes do que o simples vínculo carnal dessa existência.  Interessante que essa religião tenha sido apresentada a mim pelo Elcio, justamente a pessoa com quem eu acho que tenho o vínculo mais forte.  Explico: sendo filha, sendo mãe, sendo irmã tenho laços fortes com os meus entes queridos.  Além do amor absoluto, tenho com eles um vínculo de sangue que nos une definitivamente.

Com o Elcio, não existe esse vínculo sanguíneo e durante muitos anos não existiu nem mesmo proximidade física. Estados separados, vidas totalmente distintas que, de alguma forma, seguiram de forma paralela.  No nosso caso, não dá pra acreditar somente em destino. Porque o destino pode até unir, mas não mantem unido.  Nesses quase quinze anos que estamos juntos uma coisa não parou nunca de crescer: nossa cumplicidade.  A gente fica cada vez mais unidos. Não que ele nunca tenha errado.  Ele errou, eu errei, mas mantemos o desejo constante de aprender, de melhorar.  E nos presenteamos sempre, todos os dias, com novas chances.  Somos benevolentes um com o outro, damos as mãos sempre.

Amor da minha vida, tenho um orgulho danado de vê-lo constantemente se transformar em uma pessoa melhor.  Pai, marido, filho, irmão, profissional, você é bom em tudo o que faz; mas não porque é prefeito e sim porque evolui sempre.  Obrigada por ter me escolhido para seguirmos juntos nessa vida. Você e os nossos filhos são tudo o que eu tenho de mais importante!

Que presente você estar aqui comigo!

Te amo pra sempre!

Estávamos os três a caminho da escola no carro.  Como a menina ia fazer prova naquele dia, o assunto era estudo, leitura, memoria e afins.

- Filha, a sua memoria é como a minha. Você tem memoria auditiva, então fica mais facil de aprender se voce ler alto e ouvir o que voce esta aprendendo.

- Ah é? Que interessante!

- E a minha memoria? É o que? – perguntou o irmão interessado.

Silêncio meu e da Isa.

Pausa para explicação: memoria não é exatamente o forte do Gui.  Ultimamente, eu tenho até pensado bastante em algumas possibilidades de ajuda-lo a desenvolvê-la. Considerando esta informação, naquele momento de silêncio, eu estava tendo encontrar uma resposta que não ferisse a auto-estima do filhote. Eis que a Isabella resolve o problema:

- Sua memoria é um talento oculto…

- Nossa, que legal! – respondeu sorridente e satisfeito o menino de seis anos.

Definitivamente raciocínio rápido não é um talento oculto da Isa. :)

Lá em casa eu regulo muito as coisas que as crianças comem.

Salgadinho? Nem pensar, não tem.

Refrigerante tem, mas não pode durante a semana. O Gui não gosta, graças!

Bolacha recheada e bolinho? Só um pouquinho, depois da fruta.

Considerando esse contexto, estava conversando com ele outro dia:

- Ai, filho, você está tão magrinho! Eu queria que você engordasse um pouquinho, comesse mais.

- Mãe, sabe o que é? Você só dá fruta e verdura pra gente.  Essas coisas não têm nada, só têm vitamina. Vitamina não engorda.  Você deveria deixar eu comer bolacha, bolinho, tomar sorvete na hora que eu quisesse.  Aí sim eu ia engordar…

Acho que ele tem mais futuro como Advogado do que como Nutricionista. :)

Mas não é!

Depois de esperar muito tempo e de pedir caridosamente um milhão de vezes que o Gui arrumasse a cama dele para que eu pudesse apagar a luz para eles dormirem, decretei:

- Agora você vai apagar a luz! – e saí do quarto.

Enquanto estava andando pelo corredor, ouvi o menino reclamando muito. Resolvi parar para ouvir.  Não sei bem o que ele estava falando, mas terminou assim:

- Parece que eu tenho que fazer tudo sozinho nessa casa!

Ao me ver na outra ponta do corredor ouvindo toda aquela ladainha, ele se justificou:

- Eu disse “parece”!

:)

Então tá!

Estava no quarto e ouvi o menino gritar com a irmã:

- Isa, não acaba isso aí mais não?

A irmã, que estava no banheiro com a porta fechada, ignorou solenemente o menino.  Ele insistiu:

- Isa, é número1, 2 ou 3?

“Três? O que será número três?” – pensei.  Não me contive:

- Filho, o que é número 3?

- Vômito! – respondeu num piscar de olhos.  :)

Você já Chorou Hoje?

Eu já, mas de felicidade!  Lindo texto do Elcio:

“Quando recebi a notícia do meu câncer pensei duas coisas de imediato, a primeira foi: “ainda bem que é comigo e não com as crianças ou a Erika” e, a segunda, “se eu faltar para a minha família, o que será deles?”

Imaginava que eu, sendo o pai, teria a obrigação de suportar as grandes desventuras da vida, poupando-os das decepções e sofrimentos. Deveria estar com eles sempre que necessário por longos anos, sem saber ao certo até quando…

Hoje, após o tratamento, continuo achando melhor ter sido comigo que com eles, mas entendo que uma doença dessa não é uma loteria que sorteia uns e exclui outros. Ela é um presente da vida, como um livro que não gostamos da capa e que precisamos ler até o final, seja ele qual for. Acontece que este livro nos dá uma nova visão das coisas, uma nova perspectiva de mundo.

Logo no primeiro capítulo desta “leitura obrigatória” aprendi que não conseguiria poupar ninguém dos seus próprios sofrimentos e angústias, pois cada um tem o seu caminho, sua jornada, suas leituras e aprendizados.

Jamais terei como garantir que aqueles que amo não irão sofrer ou passar por privações. Não posso garantir que eles não ficarão doentes e que eu vou ficar aqui eternamente, não estou no controle dessas coisas.

Aprendi de forma indelével, no fundo da minha alma, que o único legado que posso deixar é o meu amor por cada um deles. Com o meu amor eles poderão contar em todos os momentos bons ou ruins, esteja eu ao lado deles ou não. Com a certeza deste amor eles poderão ter forças para crescer, trabalhar, superar, vencer e principalmente amar ainda mais.

Amo vocês!”

Acabou!

Nos últimos meses, nós enfrentamos uma das piores coisas que uma família pode enfrentar na escala de coisas ruins da vida: o Elcio descobriu um câncer já em um estágio de metástase. O câncer não apenas acomete um individuo, ela adoece a família toda.

O nosso núcleo familiar mais próximo sofreu um baque direto, que atingiu também nossos familiares distantes e amigos. Alguns planos foram cancelados; sonhos, adiados; preocupações, que a gente deixa sempre embaixo do tapete, afloraram. A gente se dá conta de que não é nada e percebe que a gente não é dono da nossa vida, dos nossos planos e nem mesmo da gente, com bem dizia a sábia Mamãe Clory. Pensar assim dá um medinho, né? Mas também nos coloca cara a cara com a idéia de que não apenas somos. Nós estamos. Tudo é transitório: os prazeres, as dores, as alegrias e pesares. Essa idéia de que nada é definitivo pode, algumas vezes, dar-nos esperança e desejo de sermos sempre melhores. Com esse pensamento é que a gente consegue tirar o melhor de cada experiência.

Eu criei uma imagem de que o câncer poderia ser como um rastelo de areia: ele serve para separar tudo o que nos prejudica, faz mal e atrasa daquilo que queremos manter porque nos é benéfico. O Elcio em um momento percebeu a doença como um respiro, um tempo para avaliar tudo e ver que rumo seguir. Se a gente parar bem para pensar, as duas idéias são complemetares.

Poder avaliar, separar, limpar e decidir qual caminho seguir é uma benção.

Poder perceber que a gente tem amigos que nos ajudam nas questões práticas, que rezam por nós, que se preocupam é uma benção.

Poder sentir que o amor que nos une em família é verdadeiro, sincero, forte e capaz de resistir a qualquer prova que a vida mandar é uma benção.

Se essas bençãos chegaram até nós através de uma doença, que seja. Garanto que a lição foi aprendida e que elas não serão desperdiçadas.

Câncer é uma doença que incomoda, desconforta, traz medo. Quando a gente fala de uma pessoa jovem como o Elcio, os sentimentos vem ainda mais fortes. Aos amigos que venceram o desconforto, o medo de falar, a insegurança de como reagir e nos deram apoio e nos ajudaram sempre, nosso mais sincero agradecimento!

Obrigada a nossa família querida que nos ofereceu ajuda, dinheiro, tempo, disponibilidade, conselhos e que nos deu a única coisa que estávamos realmente precisando: amor!

Meu amor, que bom que você está bem! Não imagino minha vida sem você nem um minuto! Quanta coisa a gente já viveu, não? Que compromisso forte e bonito assumimos juntos. Nossos filhotes precisam de você sempre do lado deles como você é: brincalhão, amoroso, bringuento, cheio de manias… Como bem disse a Isabella hoje mesmo, eu adoro ver você sorrindo! Te amo demais!

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